Entrevista de cinco minutos e voce está contratada! – (Segunda Parte)

Zouk camouflado

Entrevista de cinco minutos e você está contratada!

 

(Você já leu a premeira parte dessa história? Você pode encontrá-lo aqui: “Como é meu parceiro de dança transformou meu sonho em um pesadelo.”)

09 de Janeiro de 2014: Foi a minha primeira vez no Rio de Janeiro. Eu pousei, corri para casa da minha amiga Ana para tomar banho e mudar de roupa e chegar à festa de abertura do congresso Zouk organizado pela Renata Peçanha, conhecida como a Rainha do Zouk. Senti-me tão sortuda de estar no mesmo espaço que todos esses incríveis dançarinos sociais e professores de renome mundial. Era o começo de 4 dias de aulas sem escala e festas. Eu estava no céu Zouk.

Conheci Kamacho no final da terceira noite. No meio da nossa conversa, ele começou a olhar para os meus pés e me perguntou se eu fazia balé. Aparentemente, eu estava em pé na primeira posição com uma linda viragem para fora, mesmo sem perceber.

Ele continuou a me fazer perguntas: por que eu estava aqui no Brasil e quais eram os meus objectivos? (Aperfeiçoar meu Zouk e me tornar uma dançarina profissional). Eu poderia viajar na Europa? (Sim.) Se eu tinha um trabalho ou outros compromissos, como crianças ou um marido que me impediria de prosseguir isto a tempo inteiro? (Não.) Eu consigo fazer um espacate? (Sim, com a minha perna direita) Após esta “entrevista” ele disse: “Ótimo. Estou à procura de uma parceira. Você gostaria treinar comigo?”

Eu não estava acreditando. Kamacho, o dançarino brasileiro que tinha viajado por toda a Europa e cujos vídeos Youtube eu estava assistindo e usando para praticar, queria treinar comigo? Na altura, não parecia estranho para mim que não tinhamos sequer ainda dançado. Fiquei chocada. Meus sonhos estavam prestes a se tornar realidade, e foi só meu 3o dia no Brasil. O universo parecia conspirar a meu favor.

Dois dias após o congresso terminar já estávamos treinando na sala do apartamento de sua família. No ano anterior, ele havia instalado espelhos em duas das paredes para torná-lo como um estúdio de dança. Quando cheguei lá, ele já tinha feito o espaço para ensaiar empilhando os sofás um em cima do outro e empurrando-os em um canto. Naquele primeiro dia, ele disse que íamos começar a trabalhar em uma coreografia e ele me mostrou a música e alguns dos movimentos que ele queria incorporar. Seu objectivo era realizá-lo no congresso Zouk Praga que era em dois meses e meio. Eu só estava aprendendo zouk à um ano nesse ponto e fiquei lisonjeada por ele pensar que eu seria capaz de melhorar bastante nesse curto espaço de tempo para realizar e ensinar com ele no maior congresso de zouk na Europa.

Ele também me disse que estava indo para ensinar em um congresso no estado de São Paulo nesse fim de semana e queria que eu fosse com ele. Eu estava muito hesitante. Como poderia uma “gringa” como eu ir e ensinar os Brasileiros a dançar Zouk Brasileiro depois de apenas uma semana de treinamento?

Eu finalmente concordei em ir. Quando chegamos eu estava nervosa e pedi-lhe para me mostrar o que ele ia ensinar em suas oficinas para que eu me pudesse sentir preparada. Para ambas as oficinas ele encontrou uma desculpa para não passar por cima dos movimentos comigo. Talvez ele não chegou a ter um plano e fez-se o movimento que ele estava indo para ensinar no local, mas de qualquer forma ele não explicou nada para mim.

Um movimento envolveu múltiplas voltas em um pé, mas o chão coberto de vinil fez meu pé prender e o que deveria ter sido rodadas ventosas pareciam se transformar em melaço. Eu senti a torção e pressão no meu joelho, e sabia do que eu aprendi na fisioterapia que, quando o joelho vai para um lado e o pé se recusa a seguir — como estava acontecendo agora — eu arriscaria a uma lesão. Pedi-lhe para ir para outro lugar onde o chão estava nú, explicando o problema para ele e pensando que ele iria obrigar sabendo que tinha que realizar naquela noite e sabendo que eu já tinha um joelho sensível de uma lesão no passado e precisava ter cuidado.

Mas Kamacho segurou firme com a filosofia de que a vida é luta e que é preciso provar constantemente que podemos superar todas e quaisquer forças externas que estão contra você. Se o chão estava pegajoso, então eu teria que colocar meu corpo de forma diferente, ou segurar meu pé mais forte ou… alguma coisa!!!! Mudar para outro local era resposta da pessoa “fraca”. Ele não gostava de pessoas fracas.

No dia da performance estávamos correndo em apenas três horas de sono. Tínhamos ido para a festa do congresso na noite anterior e acordamos às 7h para ter uma aula de elevações com Marcelo Grangeiro, considerado um dos melhores do Brasil para elevações e truques. Kamacho disse que era a forma mais rápida para aprender, treinar com os melhores. Às 10h, dê-mos uma aula e depois que ele começou a me ensinar os movimentos que ele queria usar na performance daquela noite. Ambos nós quentes e cansados, ele começou a perder a paciência comigo. Quando eu continuei a fazer o movimento errado, perguntei-lhe uma pergunta sobre a minha colocação do corpo e como ele não sentia natural. “Por que você faz perguntas estúpidas? Pare de falar e apenas faça-o”, ele respondeu.

Eu percebi que ele estava ofendido porque ele pensou que eu estava questionando a sua técnica, então eu expliquei que eu só queria entender. Isso o fez mais irritado. Sentou-se e recusou-se a continuar a ensinar- me. Eu tive que implorar para ele — da maneira que você faz com uma criança petulante — para continuar a trabalhar comigo. Seria a minha primeira demo e eu não queria ficar mal. Eu decidi manter o silêncio sobre o seu comportamento para que possamos seguir em frente.

Naquela noite dividimos o palco com alguns dos melhores dançarinos do Brasil. Eu tive sorte que eu era tão ignorante de quem eram essas pessoas na altura, caso contrário, eu teria ficado dez vezes mais nervosa. Nós éramos os únicos que não tinham preparado uma coreografia, que estavam fazendo uma performance improvisada. À medida que Kamacho via os outros, e o fato de que seus números de dança incluem truques e elevações, ele decidiu que queria fazer um dos nossos. Cerca de cinco minutos antes de irmos ao palco, ele me ensinou o truque que iria se tornar o destaque da nossa demo (veja abaixo no minuto 2:47). Eu estava tão hesitante em fazê-lo — era algo que eu tinha acabado de aprender! E se alguma coisa desse errado? Ele não se impressionou com a minha falta de coragem. “Vou conduzi-la — apenas faça-o.”.

Eu fiz isso. Ele ficou muito satisfeito.

De volta ao Rio de Janeiro, nós voltamos para o treinamento.

Eu fui até casa dele todos os dias, após uma viagem de ônibus de 80 minutos de onde eu estava hospedada. Nós treinávamos todo o dia lá e à noite, quando sua família chegava em casa íamos para um estúdio de dança nas proximidades para continuar treinando. Em seguida, eram mais 80 minutos para chegar em casa. Em algumas noites fomos para os eventos de Zouk e praticava o que me havia ensinado lá. Esses dias foram cansativos, mas eu sentir que fazia sentido suportar esse ritmo, se eu quisesse melhorar rapidamente.

Ele era rigoroso no que ele queria que eu trabalhasse em algo, mais e mais até que fosse perfeito, ao invés de construir lentamente o meu nível dia a dia. Ele costumava perder a paciência comigo e dizer coisas como: “como posso coreografar e ser criativo, se eu tenho que para a cada cindo minutos para mostrar-lhe a técnica?” Isso era verdade e eu entendi por que o deixou frustrado, mas ele também sabia que eu era apenas uma dançarina Zouk intermediária e tinha vindo ao Brasil, sabendo que eu tinha muito a aprender. Mas eu não queria confrontá-lo, porque eu sentia que eu estava aprendendo muito com ele e estava tão motivada a melhorar rapidamente. Eu pensei que, como eu melhorei, ele seria capaz de ganhar a paciência.

Isto é de um e-mail que enviei a um bom amigo a 20 de Janeiro:

“Agora eu estou me sentindo um pouco stressada porque, como muitos artistas, Kamacho é um pouco louco, vai de completa falta de foco para a imersão total, é muito desorganizado, etc. Além disso, ele tem uma filosofia que choca com a minha: por exemplo, ele fica chateado quando eu quero ter uma boa noite de sono(em vez de dançar em uma festa durante toda a noite) e se levantar cedo para treinar. Ele pode ir para longas crises de não comer(claramente completamente oposto de como eu escolho tratar o meu corpo). É preocupante que ele passou por muitas outras parceiras de dança que ele não considera serem o caso, e parece estar à procura de perfeição. Eu sei que eu deveria experimentar e ver o que pode sair dessa e que eu possa escolher um caminho diferente se isso não é para mim, é apenas mais difícil de ver claramente quando você parece estar no caminho para o seu sonho: com ele eu vou ter a oportunidade de ensinar e realizar internacionalmente, que é um feito raro, mesmo para alguns dos mais talentosos dançarinos aqui…”

Traição

Uma noite, ele estava coreografando no estúdio. Eu ficava olhando para o relógio ao longo dos espelhos. 23:00. 23:30. 23:50. A longa viagem de ônibus pela frente e onde eu saia era residencial, nada de lojas e ao lado de uma rodovia. Como um estrangeiro, no Rio de Janeiro, eu sabia que não era seguro estar andando pelas ruas sozinha neste momento. Eu não tinha sequer um telefone para ligar para Ana e deixá-la saber que eu estaria indo para casa tarde. Eu expliquei essas coisas para Kamacho e disse que eu tinha que ir. Ele insistiu para que eu ficasse, pois ele estava em seu momento de inspiração e queria continuar a coreografar. “Eu realmente não posso ficar”, eu disse, “mas ficaria feliz em continuar a trabalhar amanhã.” Ele virou as costas para mim e não disse nada. Eu calmamente juntei minhas coisas e comecei a descer a escada que levava à rua. À medida que eu estava descendo, percebi que não tinha concordado uma hora para nos encontrarmos no dia seguinte, então eu voltei para perguntar. Eu fui recebida com gritos indignados. Como ouso eu interrompê-lo em seu processo criativo quando eu tinha feito a escolha de parar no meio dela e sair!?! “Eu não estou falando com você!” ele gritou. Eu recuei, abalada e confusa.

Eu voltei de volta para o apartamento de Ana inteira, e na manhã seguinte mandei uma mensagem para ele para ver a que hora nos encontrávamos, pensando que seria melhor ignorar a explosão do dia anterior. Ele insistiu falarmos pelo Skype. Ele expressou sua decepção em mim. Ele disse que estava procurando uma parceira que tivesse a mesma “cabeça” como ele, a.k.a., que pensasse o mesmo e tivesse a mesma abordagem para atingir metas. Ele disse que isso era a coisa mais importante, e ele queria saber se eu tinha. Se eu tivesse, eu estaria disposta a ficar acordada e ensaiar durante o mesmo tempo que ele(em retrospecto eu percebo que significava que seria até ele querer). Ele disse que eu precisava entender que essas eram as qualidades de um profissional e um grande dançarino.

Ele encontrou. Meu ponto fraco. Eu sempre fui uma perfeccionista e nunca ninguém tinha me dito para me esforçar mais, porque eu sempre fui o meu crítico mais duro. Eu tinha deixado meu trabalho, aprendi Português, ido ao Brasil, estava usando minhas economias para treinar em Zouk a tempo integral, e me comprometi a treinar com ele todos os dias até o congresso em Praga — mas aparentemente isso não foi suficiente. Eu sentia que tinha que me defender. “Mas, mesmo que eu queira ficar, eu tenho uma viagem de ônibus de 80 minutos de volta!”

Bem, você pode dormir na minha casa, se isso faz com que seja mais fácil para você, disse ele. Isso fez sentido para mim, isso significava menos tempo de viagem e mais tempo de treinamento. Assegurei-lhe que eu tinha grandes sonhos e estava disposta a colocar o suor necessário para alcançar meus objectivos.

O pequeno quarto em que dormi, ele me disse eventualmente, que o tinha estabelecido para a sua antiga parceira, Brigitte. Ele havia sido pintado de um roxo suave, e havia um ar condicionado para as noites quentes do Rio. Kamacho tratou dele como um santuário do resto da casa, que era muitas vezes preenchida com revestimento de chão de madeira que o negócio do seu Pai vendia, e que seu pai e irmão movimentavam à medida que as encomendas eram preenchidas e os materiais comprados. Inicialmente aquele quarto parecia um lugar de paz. Mas com o tempo, as coisas que aconteceram naquele quarto fizeram sentir como se as paredes estavam se fechando para dentro. Talvez elas estavam tentando me dizer os tormentos que Brigitte sofrera lá. Dos tempos em que ela realmente trancava a porta(gasp!) a fim de falar com seu amigo no Skype sobre todas as coisas que ela estava passando, só para ter Kamacho batendo nela e a ameaçar desligar a internet, para ela não ser capaz de falar mais com seu amigo.

Ela também havia treinado todos os dias em sua sala de estar e tinham excursionado pela Europa juntos. “Eu ensinei a ela a partir de zero”, ele dizia com orgulho. “Ela nem sabia como fazer o passo bumerangue!” De acordo com ele, ele terminou sua parceria, porque ele percebeu que ela não tinha o que era necessário para executar, e ele estava à procura de uma parceira que poderia deslumbrar em palco com ele.

Ele se sacrificou para que eu pudesse dormir. Ao contrário do quarto que dividia com seus irmãos, aquele pequeno quarto estava livre de todo o pó do piso que entrava e saia da casa. As alergias de Kamacho deflagraram e assim ele passou a dormir na sala de estar, por vezes nem se preocupava em posicionar o sofá e dormia directamente no chão.

Depois de duas semanas, ficou claro que dormir em casa dele significava que estaríamos a treinar ou saindo para um evento todas as noites da semana, e só voltava a casa da Ana no fim de semana para lavar a roupa e reencaixotar. Kamacho me pressionou a ficar no fim de semana para que pudéssemos fazer mais trabalho. Eu finalmente aceitei em me mudar de modo que eu não teria que ligar com ele sobre o meu tempo, para que todo o momento poderia ser dedicado à formação.

Kamacho queria que eu aprendesse Samba de Gafieira e também Samba Funkeado. Querendo treinar com o melhor, ele tem um grande professor de Samba Funkeado que viria todas as manhãs em troca de Kamacho lhe ensinar Zouk. Eu raramente sabia a agenda da semana, ele iria apenas me acordar e dizer: “o professor está aqui.”. Eu não tinha nada a dizer, eu só tinha que seguir sua liderança. Nós não tínhamos horas definidas para as refeições e muitas vezes eu tinha que perguntar a ele se poderíamos por favor parar para comer alguma coisa. Vivíamos principalmente à base de snacks.

Uma noite, eu estava num evento Zouk que ele havia organizado. Não havia muitas pessoas, mesmo sendo com o DJing, ele aproveitou a oportunidade para dançar comigo e praticar. Ele estava corrigindo e explicando as coisas, mas com a música alta era difícil de ouvir. Quando eu não entendia ou não estava fazendo a coisa certa, ele se sentia frustrado. Ele começou a praguejar. Sua frustração levou a raiva e com muita força empurrando meu corpo ao redor. Algumas coisas eu entendi e comecei a obtê-las certas, mas ele nunca admitiu que eu tinha corrigido, optando por se concentrar no que eu estava fazendo de errado. Em um momento eu sentir como se tivesse 20 coisas diferentes que eu precisava de acompanhar enquanto dançava, para não deixá-lo chateado. Nós parámos de dançar e eu me sentia arrasada. Eu realmente o admirava e achava que ele queria ajudar a me levantar — mas ali estava ele, sempre me empurrando para baixo.

Um conhecido estava lá e me perguntou por que eu estava tão chateada. Comecei a reclamar com ele sobre como eu tinha sido tratada na pista de dança. Ele me disse que havia uma outra festa Zouk acontecendo na escola de Renata Peçanha. Se eu queria ir para lá em vez disso? Eu queria ir para a escola de Renata desde que eu tinha chegado no Rio de Janeiro, mas Kamacho me dissuadiu, dizendo que ele tinha aprendido naquela escola, e tudo o que eu queria aprender lá eu poderia aprender com ele. Peguei o convite, disse adeus a Kamacho e saí.

No dia seguinte, ele expressou a sua indignação. Eu o havia traído. Como eu poderia deixar meu próprio parceiro dessa forma para sair com um cara? Foi inaceitável.

Com o meu Português rudimentar era dificil de explicar meus sentimentos, portanto eu lhe escrevi um longo e-mail em Inglês, tentando manter as frases simples para que ele pudesse entender. Tentei falar sobre o bom e o mau, para fazê-lo ver que eu não tinha a intenção de ofendê-lo.

Meu e-mail para Kamacho enviado a 26 de Janeiro:

“Você é tão gentil e generoso com todos ao seu redor – você dá um monte, você compartilha o seu conhecimento de dança com eles. Você é muito gentil comigo, você cuida de mim e está sempre tendo certeza que eu estou OK. O que eu não entendo é por que você é tão diferente quando está me treinando. Você fica com raiva e fala comigo de uma maneira ruim.

Por que você fica tão irritado e agressivo quando eu faço algo errado? É assim que você quer tratar alguém que será a sua parceira? É esta a energia com que você quer trabalhar? Ou você está apenas frustrado que eu sou lenta para aprender as coisas? Como você diz, você é livre para escolher, e se você quer uma parceira que já tem a base de Zouk de modo que você não tem que ensinar, a escolha é sua….

Eu quero praticar muito e quero aprender com você, porque eu acho que você é um belo dançarino. Eu realmente gosto de sua técnica e acho que tem um conhecimento incrível de dança. Eu quero ser sua parceira, porque você é tão criativo e tem uma visão tão inspiradora de onde você quer levar essa dança. Porque você me inspira. Gostaria muito de fazer parte do seu processo criativo. Eu sei que posso me tornar muito boa se você estiver disposto a colocar o tempo e ter paciência comigo. Mas, eu não posso trabalhar todos os dias com alguém que só vai ficar com raiva de mim….

Ontem, você fez isso na festa e foi desgastante para mim. Eu senti como se eu não pudesse estar mais naquele espaço. Você me disse que não o respeito quando saí, mas acho que é você quem não me trata com respeito quando fala comigo do jeito que você faz quando me está treinando.”

Sua resposta ao meu e-mail foi: “como eu sou é apenas a minha personalidade.” Ele disse que eu precisava de fazer sacrificios para obter resultados. Mais uma vez, ele reiterou que precisava de alguém que estava na mesma sintonia que ele. Então, mais uma vez eu jurei minha lealdade. Pensei que tínhamos ambos aprendido algo nessa noite — para mim foi que, se você tem um parceiro, precisa de ser leal, mesmo se a situação ficar na merda, mesmo que se sinta uma merda.

De um e-mail que enviei a um amigo no dia seguinte:

“Esta semana será o teste final – se eu continuar a sentir que estou desconfortável com sua abordagem, que é muito desgastante para mim psicologicamente, eu vou parar de trabalhar com ele e buscar outras oportunidade. Eu sinto que eu preciso de provar a mim mesma que não há como isso poderia funcionar, caso contrário, eu posso ficar com remorso por não ter tido essa oportunidade.”

A decisão de viver sem arrependimentos foi o que me trouxe para o Brasil. Cada aula, cada show de dança, cada congresso me deixou com um “e se?” amargo. Mas desta vez a minha necessidade de provar algo para mim mesma além de toda a dúvida levaria a minha lesão no pescoço.


 

Leia meu próximo post: “A lesão

 

7 thoughts on “Entrevista de cinco minutos e voce está contratada! – (Segunda Parte)”

  1. Olá Luciana querida!
    Parabéns por sua coragem em estar expondo todos os problemas que você passou. Isso só contribui para que possamos pensar mais nesses fatos que são tão comuns no nosso meio!
    Eu realmente entendo o que você passou com seu ex parceiro Kamacho. É engraçado como essas histórias se repetem com parcerias de danças, muitas coisas que você conta eu já me vi nas mesmas situações exatamente!
    Fico me perguntando por quê a situação chega a esse ponto? Muitas questões sociais já estão introduzidas, questões e costumes que “meio” que nos acostumamos e que na verdade não tem problema nenhum nós desacostumarmos se não estiver bom! O fato é que hoje em dia a dança de salão se tornou não de dois e sim de um, onde o importante é a figura de uma personalidade e não de duas pessoas ou de um casal. E o engraçado é que as pessoas realmente estão valorizando isso!
    Acho que o mais importante a partir de agora são as mulheres entenderem o quão importante somos nessa luta por reconhecimento, por respeito e direito igual de espaço e liberdade moral. Também estudamos, e muito, também damos aulas e fazemos shows, também podemos conduzir e ser conduzidas, podemos tudo igual, a dança é arte e não tem restrição, ao contrário, podemos descobrir e redescobrir diversas possibilidades de continuar desenvolvendo-a. Mas se nós que nos sentimos oprimidas temos então que combater o opressor! Se está bom para uns e ruins para outros, não espere de outros uma iniciativa, façamo-as, pois acredito que nós mulheres não estejamos felizes. E eu não digo a felicidade de ter um parceiro ótimo que te trata bem e te ouve, pois sim, acredito que isso de verdade exista, mas falo do que em geral não nos faz bem, coisas como sermos muitas vezes rebaixadas a posição de simples seguidoras na dança, sendo que acredito sermos muito mais, muito mais que simples seguidoras, ou “boa seguidoras leves”. Somos ativas em dança, somos criativas, por momentos podemos conduzir rápidas intenções de movimento, somos musicais, conhecemos todas as músicas e principalmente SENTIMOS! Na dança é necessário e sempre será existir o condutor e a seguidora, mas isso não significa o condutor “mandar” todo o tempo, é preciso sentir junto a seu par, a dança é sentida pelos dois e transmitida pelos dois, o condutor não tem o poder de sentir uma dança sozinho, apesar de o mesmo estar hoje em dia forçando essa situação na maior parte de sua dança!
    Precisamos nos unir! Precisamos discutir mais essas questões! Precisamos entender o que acontece e porque acontece, para assim começarmos a modificar um pouco essa realidade desigual dentro e fora da dança!
    Obrigada Lua por despertar essa vontade de luta dentro de mim!
    Aline Cleto!

    1. Belas palavras Aline … Eu Concordo com Vc precisamos mesmo nos unir nao só para combater os opressores, mas pra nos fazermos Mais fortes e mostrar ao mundo da dança de Salao Ainda com o machismo do seculo passado que o nosso Papel na dança nao é apenas o de seguir, e que a dança que apresentamos vem de uma Batalha diaria contra o pre conceito, contra o peso, contra o sono, contra a falta de respeito … alem de Tudo o que Vc ja falou, muito estudo e dedicacao. Eu sofri muito preconceito e precisei provar minha competencia a arduos caminhos depois que terminei minha parceria a alguns Anos atras, as Pessoas Sao muitas crueis no julgamento e acham que em uma parceria Bem sucedida aos olhos do publico a honra é só do homem que conduz. Ate Hoje luto contra o preconceito de que mulher nao sabe e nao forma cavalheiro… Aos pouco a estou conseguindo Mudar essa realidade ridicula e conquistar a confiança de Alunos homens que estao realmente interssados em aprender e nao em busca de uma oportunidade, se é que me entende?? Passando por todas essas
      Provaçoes que desevolvi um projeto para as damas, usando Meus conheçimentos em anatomia, adquiridos na minha formação em educação fisica , projeto esse em que trabalho as movimentacaoes todas no modo safe , prevenção contra lesoes, anatomicamente correta, fazem 3 Anos que escrevi e pratico mas minhas Aulas .
      Infelizmente esse assunto que a Luciana abordou é muito serio e nao se restringe so a parceria em si, a sociedade dançante é machista é muitas damas tb Sao , isso é um problema serio e antigo , espero que todas essas manifestaçōes tragam um resultado positivo para o nosso mundo e que todos tirem uma lição disso Tudo. Parabens Luciana pela sua coragem e espero que isso Tudo te fortaleça e te faça crescer Ainda Mais como Pessoa e como dançarina ,nao desista do seu sonho pois o sonho só acaba quando nós desistimos dele e deixamos de acreditar …. Bjks

  2. Ta aí uma parceira q eu admiro muito! Ruanita!!! Indiscutivelmente na dança os cavalheiros precisam e muito das damas…. Eu aprendi isso quando eu e a Ruanita terminamos uma bem sucedida parceria! Agradeço muito a ela por tudo q conquistamos neste tempo e aplaudo de pé o trabalho q ela vem realizando nestes anos na Holanda. Parabéns Ruanita carmelita … Rsrs…. Estou orgulhoso por vc! Precisamos muito sim de vcs, a dança e 50% h e 50% m , senão não seria dança a dois… Chessuissssssssss

  3. Lembrando e adiantando q não estou criticando ninguém ou contra alguém … Cada um com seus problemas… Apenas coloquei experiência de vida minha…. Rsrs

  4. Oi Luciana, nao te conheço mas venho acompanhando a sua historia já a algum tempo, e na verdade nao me sorpreende muito esses acontecimentos, porque existem muitos casos similares ao seu, só que a maioria nao sai a tona!
    Sou dancarino e professor há 20 anos. já trabalhei no passado com profisionales como Adilio, Renata, Fabiano, Alex de Carvalho, entre outros que somos da mesma geracao de professores de salao. Tambem vi toda essa nova geraçao de dançarinos nascer e crescer, por mais que a maioria deles nao me conheçam porque moro na Argentina ha 15 anos, venho acompanhando o desenvolvimento da dança brasileira(principalmente o zouk) no Brasil e no mundo.
    É uma pena que a dança de salao tenha se transformado nesse canibalismo, onde o mais importante é ser reconhecido, e convidado para um congresso na Europa!!! A final nao existe mais o prazer de dançar? o prazer de descubrir junto a outra pessoa a harmonia perfeita? Porque disso se trata a dança a dois, seja zouk, samba ou cha cha cha.
    Dançar bem nao é garantia de que vc seja uma boa pessoa, dançar bem nao tem nada a ver com a psiquis de cada um. Existem loucos egocentricos em qualquer ambito.
    Quando o crescimento está basado no prazer de dançar nao teria que acontecer essas coisas, ja que como disseram anteriormente a dança a dois é a dois, e na minha opiniao a dama tem maior porcentagem. Uma dama de personalidade levanta qualquer parceria! O lema é respeitar para ser respeitado y crescer juntos cada dia, disso se trata!
    Beijo e espero que o seu caso tenha uma solucao!
    Marcelinho Chastinet

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