Kamacho, o ser ilimitado que se sentiu limitado – Quarta Parte

O Ser Ilimitado Que Se Sentiu Limitado

 

(Você já leu a premeira parte dessa história? Você pode encontrá-lo aqui: “Como é meu parceiro de dança transformou meu sonho em um pesadelo.”)

A visão de Kamacho sobre o conceito de ‘parceria’ era enredamento. Eu me senti como se eu estivesse sendo dobrada pela  “marca” Kamacho, renunciando a individualidade para dar espaço a algo mais poderoso. Essa sensação de ser parte de algo maior do que eu, de ser um navio para a criatividade e de sacrificar a mim mesmo a fim de criar beleza, era inebriante.
Ele me comprou uma camisa igual a que ele tinha, com os dizeres “Eu não posso, tenho ensaio”, escrito em grandes letras de forma. Aquilo foi uma declaração de renúncia: Eu não posso comer, eu não posso dormir, eu não posso fazer amigos, eu não posso pensar sobre qualquer coisa que não seja dançar. Eu queria abraçar essa filosofia do jeito que ele fez. Empurrar a mim mesmo a cada treino.

"I can't, I have rehearsal."
“I can’t, I have rehearsal.”

 

Uma marcar registrada do Kamacho eram suas mechas loiro esbranquiçadas então eu tive que pintar a parte de baixo do meu cabelo de loiro. Ele me fez voltar ao cabeleireiro porque não estava loira o suficiente. Ele queria loiro platinado, ele queria loira para o palco. À medida que caminhava pela rua, a nossa plumagem preta e platina virando cabeças, eu me senti poderosa. O cabelo era confiança, criação e potencialidade transmutado para o físico. Ele se juntou a nós para desafiar o mundo.

Para Kamacho ter uma parceira significa que ele pode ultrapassar limites, criar movimentos que ninguém será capaz de imitar e coreografias que serão marcados a ferro nas almas dos espectadores. Mas, para ultrapassar limites, primeiro é necessário atingir a perfeição técnica  – eu não era perfeita e, por isso, estava atrasando-o.

Kamacho estava cheio de idéias, mas, infelizmente, ele tinha escolhido uma dança entre parceiros para expressá-las e, por isso, dependia de outra pessoa. Caso sua parceira não compartilhasse de suas visões, ele sentia-se sua criatividade engessada. Ele sentia uma profunda frutração, a frustração de um artista impedido de criar. Ele se enfurecia comigo, mas na realidade estava furioso com o sentimento de ser impedido, furioso por ter que ficar parado quando ele gostaria de correr, saltar e pular.

Eu acreditava que sua raiva era um sentimento que o possuía, algo que obscurecia o bem que ele tinha dentro de si. Mas pensava que, com paciência, eu seria capaz de trazer essa coisa boa para a superfície e extinguir a raiva. 

Boas Memórias

Kamacho fez uma série de trabalhos sobre teoria do movimento e sobre como Zouk deve ser dançado. Uma vez, depois de discutir com ele sobre seus métodos agressivos de ensino, ele bem humorado colocou o lado intelectual para funcionar e me desenhou imagens e gráficos da dinâmica do movimento da cabeça no Zouk. Embora eu tenha comprendido e concordado com tudo que ele me disse na teoria, meu corpo não absorvia as informações tão rápido quanto ele gostaria e isso sempre foi um problema.

A minha melhor lembrança dele é de uma noite em que ficamos acordados até tarde da noite escrevendo o seu “livro”.  Ele queria publicar suas idéias sobre dança e música em Inglês e eu me ofereci para ajudar. Ele ditava uma sentença em Português e, em seguida, eu leria de volta a minha versão em Inglês. Sempre que não entendia as palavras ou a estrutura, ele vetava minhas frases. Isso acontecia muitas vezes e, por isso, eu gostaria de traduzir a minha versão de volta para o Português para convencê-lo de que a minha versão ainda continha a essência do que ele estava dizendo.

Para algumas partes ele insistia em manter suas ideias quanto ao Inglês. Nós rimos de nós mesmos até as lágrimas tantas vezes quantas eu tentei explicar a ele o que as palavras que ele estava usando, na verdade, significavam o contrário do que ele pensava que queriam dizer. Toda vez que ele fazia alguma asneira sua piada para mim era dizer “seu Inglês é muito ruim!”.

Foi bom que eu pudesse usar o meu talento como escritora para ajudá-lo. Assim também podíamos interagir fora do contexto da dança onde ele era um rei supremo. Eu sentia como se estivesse, finalmente, oferecendo-lhe algo de valor.

“Quando você pinta uma tela, você tem a liberdade para criar o que está dentro de sua mente. Assim é na dança, quando você está conectado à música, tanto quanto a sua mente e seu corpo, você tem a liberdade para criar o que quiser – seja feio ou bonito.” (Tradução do ditado de Kamacho.)

Um dia ele veio com um exercício que ajudou a me conectar mais profundamente com a música, exercício que eu ainda acho genial. Com caneta e papel nas mãos, eu deveria ouvir música e mover a caneta como a música sugere. Ambos fazíamos o exercício, enchendo páginas com loops, rabiscos, linhas duras, linhas suaves e linhas que corriam furiosamente para baixo da página. A música ditava a velocidade da minha mão, a pressão sobre o papel e as formas que eu desenhava. Cada vez que eu repetia o exercício com a mesma música, eu me tornava mais consciente de partes sutis da canção. Alguns dias mais tarde, quando eu dancei a música, eu senti como se fosse capaz de expressar todas as riquezas dela com meu corpo. Eu disse a ele o quanto eu amava o exercício e o encorajei a fazê-lo em uma de suas aulas, pois tinha certeza que seria um enorme sucesso.

Certa manhã ele me ele me encontrou desenhando a música “Impossível” uma e outra vez. Ele sorriu e naquele momento, para ele, eu era a parceira perfeita.

Um Toque Para Despertar

 

Eu cheguei em Miami animada pois iria me encontrar com amigos íntimos de Nova York e Montreal. Eu estava guardando tudo que passava em segredo. Minha página do Facebook estava preenchida com imagens de anúncios da turnê com Kamacho.

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Meus amigos acreditavam que minha carreira no Zouk havia decolado espetacurlamente e ficaram surpresos que eu estivesse em Miami enquanto estava tão ocupada no Brasil.

Eu fui para Miami porque Marc Brewer, um dançarino de ballroom dance  de muito sucesso que estava construindo sua reputação na comunidade Zouk, havia me convidado (antes da minha viagem para o Brasil) para ensinar com ele em Miami. Nosso plano era continuar a ensinar e trabalhar juntos quando voltasse da minha viagem. Apesar de que as coisas tinham mudado, eu senti que seria pouco profissional e insensível cancelar de última hora com alguém que me tinha dado tantas oportunidades.

Aqui está a demo que eu fiz com Marc no congresso:

Nos bailes eu dançava pouco – sabia que ficaria ruim para os meus alunos se eu não o fizesse, mas passava a maior parte do meu tempo fora do salão do baile, apenas observando.

“Você costumava dançar sem parar em congressos. O que está acontecendo?”  – meus amigos perguntavam. Por fora eu estava desgastada física e emocionalmente. Comecei a compartilhar o que vinha acontecendo com alguns amigos. Eles ficaram em estado de choque. “Como você está permitindo que isso aconteça? O que você está falando se chama abuso, puro e simples”, eles diziam.

Um dos professores com quem eu abri o jogo a respeito do que estava acontecendo disse para mim que percebia que era como se eu estivesse tentando chegar ao topo muito rápido, mas que o caminho mais seguro para alcançar um objetivo era começar de baixo. Ele disse que eu deveria tornar-me bolsista em uma das escolas do Brasil, encontrar um parceiro que estava no meu nível e, lentamente, começar a construir minha carreira. Para ele, parecia que este atalho não me ajudaria a chegar onde eu queria.

Mas eu já tinha 29 anos! Eu precisava de um caminho curto!

Eu deixei de lado todos os pós-baile, perdendo o espetacular nascer do sol em a praia cheia de dançarinos, só para ir para casa e dormir. Longe do Brasil e de Kamacho finalmente deixei o meu corpo se expressar. Meu pescoço estava me matando. Meu cérebro parecia nublado. (Seriam apenas meses mais tarde, quando voltasse a Nova York e visse um médico que eu descobriria que tinha desenvolvido Fadiga Adrenal em função de todo o estresse físico e emocional.)

Mas eu não totalmente destacar. Sempre que pude eu praticava a coreografia para Praga. Kamacho disse que eu tinha que ser capaz de fazer a coreografia perfeitamente por conta própria. Eu sabia que ele estava certo.

À medida que os dias foram passando, meu subconsciente processou o que meus amigos tinham dito. Eles fizeram eu me sentir como se estivesse dormindo em uma bolha de negação. Eles estavam tentando me sacudir para acordar. Eu percebi que eu deveria ser menos flexível. Comecei a pensar mais sobre porque meu pescoço não estava melhorando. Poderia ser mais do que um músculo dolorido? Eu ainda não tinha visto um profissional que pudesse me fazer uma avaliação.

Quando voltei ao Brasil perguntei se Kamacho conhecia qualquer fisioterapeuta na sua ampla rede de amigos dançarinos.

“Por que você não viu um fisioterapeuta em Miami?” ele perguntou, irritado.

“Um fisioterapeuta é alguém que você tem que ver uma vez por semana até que você sinta-se melhor, não é uma coisa de uma única vez” – eu respondi.

Ele não estava feliz. Ele acreditava que meu pescoço estava muito bem enquanto eu estava no Brasil e que ele tinha ficado pior em Miami. Mas não havia sido a lesão que piorara no retorno da viagem, e sim minhas ideias que haviam mudado.

[Trecho de um e-mail que enviei a um amigo]:

Continua sendo difícil embora eu acredite que eu já fiz algum progresso… Dois dias atrás, ele ficou chateado porque não fiz um movimento que eu não entendido [eu estava em uma posição de prancha com o minhas costas paralelas ao chão e meu peso principalmente em meus pés, mas com um braço segurando em seu braço]. Quando eu fiz algo errado mais uma vez ele me soltou e eu quase caí para trás no chão. Esse tipo de coisa já havia acontecido outras duas vezes e eu havia ficado calada. Desta vez eu disse: “não faça isso, o que você está tentando fazer, me machucar!?” ele respondeu: “você já está machucada!” (WTF !!!!) e eu respondi: “Então você quer me machucar ainda mais? Se você quer gritar comigo, você pode gritar, mas o que você fez não pode fazer de novo”. Ele ficou em silêncio e eu só olhei para ele por um tempo, então eu disse: “Ok, vamos continuar.” Eu espero que tenha estabelecido um limite que ele não ultrapassará mais, mas vamos ver…

É muito decepcionante o fato de estar realmente sozinha quando se trata de obter ajuda para alguma coisa.  Hoje eu lembrei ele sobre me ajudar a encontrar um fisioterapeuta através de seus contatos e ele respondeu: “Por que você não pede a sua amiga Ana” (ela é uma massoterapeuta e recomendou o acupunturista, mas ela não tem muitos contatos profissionais aqui desde que mora em Toronto). Expliquei isso a ele, mas só recebi silêncio pois ele continuou a fazer o que ele estava fazendo em seu computador … Estou tão irritada que ele não vá escrever algumas mensagens rápidas no Facebook para seus amigos dançarinos que poderiam recomendar um bom Fisioterapeuta. [NOTA:. Que eu iria envolvê-lo para escrever uma mensagem em sua parede] Eu fico pensando como diabos eu tenho que trabalhar com alguém que não vai mesmo tomar as medidas mínimas para garantir que a ferramenta do nosso comércio (meu corpo ) esteja na forma adequada para fazer as coisas que precisamos fazer.

Eu fiz uma consulta com o acupunturista. Kamacho veio comigo.

“Seu pescoço não está muito bem. Ela realmente precisa parar de fazer movimentos de cabeça até que a dor vá embora.”

Saímos e Kamacho disse: “Esse cara não sabe o que ele está falando, perguntei-lhe algumas coisas sobre a anatomia do pescoço e ele realmente não soube me dar uma resposta. De qualquer forma nós temos um trabalho a fazer para não pararmos de treiar. Vou levar voce para receber uma massagem no domingo “.

Era sexta-feira. Eu estava tão chateada. “Bom, se ele não acredita no que o acupunturista disse, talvez ele acreditaria no que um médico ‘real’ disser”. Resolvi ser vista e bater Raio X no dia seguinte.

Na manhã seguinte eu estava tomando café da manhã quando Kamacho acordou. Ele começou a explodir “Impossível” nos alto-falantes e repassar a coreografia. “Quando você terminar de comer, vamos aquecer para que possamos trabalhar na coreografia” ele disse.

“Eu não irei trabalhar na coreografia hoje, eu vou ver um médico e obter um raio X” eu disse calmamente, mas determinada.

“Você e seu pescoço! Sabia que uma grande parte disso tudo está na sua cabeça? Você precisa parar de fazer disso um negócio tão importante.”

Eu não respondi. Ele disse que viria comigo, que as parcerias também se tratavam de apoio mútuo.

Passamos a manhã no hospital. Eu fiz raios-X e fui atendida por um médico ortopedista.

“Para sua sorte, seus ossos parecem bem”, disse o médico. “Mas eu acho que você tem uma distençao muscular grave e treinando não será possível deixá-lo curar e talvez cause um rompimento. [NOTA.: o médico que eu vi depois em Nova York fez uma ressonância magnética e descobriu que eu também tinha um disco abaulamento]. Você precisa parar de dançar por, no mínimo, de três semanas, caso contrário você tornará isso muito pior. Você também precisará fazer fisioterapia. Olhei para Kamacho de pé no canto da sala. Eu queria ter certeza de que estava ouvindo as palavras do médico.

“Mas se os ossos estão bem, por que você não pode apenas lhe dar algum medicamento?” perguntou Kamacho.

“Eu vou prescrever um analgésico e um anti-inflamatório, mas infelizmente quando se trata de rompimento muscular a única coisa possível de fazer é esperar que a musculatura melhore. Ela não deve fazer o movimentação de cabeça por, pelo menos, três semanas, talvez mais “.

Eu senti que tinha vencido. Finalmente aqui estava um médico dizendo ao Kamacho o que eu tentara dizer o tempo todo. Finalmente eu tinha razão em como me recuperar.

Assim chegamos na rua o discurso dele começou.

“Você viu? É isso que acontece quando você dança com pessoas que eu aviso para não dançar. Eu acho que agora você vai aprender a lição. Você NUNCA me escuta. Você vai para Miami, trabalha para outra pessoa e volta toda fodida!! É isso que você chama de ser profissional? Agora você poderá descansa, mas quando chegarmos a Praga não pense que eu vou pegar leve com você quanto a movimentação de cabeça! ”

Tínhamos exatamente três semanas antes do nosso vôo para Paris e quatro semanas antes de chegar a Praga.

Voltamos para a casa dele. Seu pai, seu irmão e a namorada do seu irmão estavam lá e mesmo suas presenças não o detiveram. Ele continuria gritando.

“Você está indo para Praga e está fazendo os trabalhos que a mim estavam reservados! Eu não me importo se isso significa que o seu pescoço vai ser foder, ou se você não pode dançar Zouk nos próximos três meses, no próximo ano, ou pelo resto de sua vida! É isso que você está fazendo!”
Era o Hulk,  o monstro. O ser que não se importava com as consequências, apenas com seu trabalho e sua reputação. Naquele momento eu tive um estalo. O preço pelo atalho para a fama era alto demais. Eu não estava mais disposta a pagá-lo.

Com sua família ouvindo cada palavra, seu pai acabou se envolvendo:

“Thiago, pare de ser tão ignorante!”, seu pai disse em tom firme. “Você não ouviu o que o médico disse? Ela não pode treinar, não pode dançar agora e não pode ir para a Europa assim! Como seu parceiro, você deve tomar conta dela e não gritar com ela! ”

“Ela se meteu nessa confusão e agora ela não está à procura de uma solução, ela quer apenas abandonar o barco.” Kamacho retrucava. “Eu sou criativo! Eu sempre encaro os obstáculos de frente e sempre fui capaz de superá-los.Dessa vez não é diferente. Em caso de necessidade posso criar uma coreografia inteira sem movimentos de cabeça! Posso dar uma aula sem nenhuma movimentação de cabeça . Posso fazer o que eu quiser! ”

Como sua família tentava acalmá-lo, eu estava zonza. Isto era louco! Como eu poderia ir para a Europa com alguém que estava me ameaçando com danos permanentes?

Sem ninguém para me consolar ou para conversar eu estendi a mão ao Facebook e fui escrever um post sobre a minha lesão.

Então ele viu e explodiu novamente.

“Você é tão egoísta! Como você pôde escrever isso? Agora as pessoas vão pensar que eu fiz isso em você!! Como não pôde pensar em como isso vai refletir em mim?”

Na minha opinião nada do que eu tinha escrito o culpava de forma alguma. Eu sugeria que era um “dançarino inexperiente e de técnica pobre.”

Mas, mais uma vez, querendo apaziguar a situação com ele eu editei o post. Esta é a versão final:

“Parece que meu pescoço está f**ido! O médico disse que eu não posso fazer movimentação de cabeça no Zouk por 3 semanas! Repouso e fisioterapia são os únicos tratamento. E tudo isso em função de, num baile, numa dança com um cara aleatório que fez um movimento violento e, além de se provar descontrolado, mostrou claramente que não tinha idéia do que estava fazendo !!! O que eu aprendi da minha experiência que eu gostaria de dividir com todos (rapazes e raparigas) que dançam zouk:

1) Caso você se machuque, ESPECIALMENTE seu pescoço, pare de dançar imediatamente! Vá ver um médico no dia seguinte para certificar-se de que está bem. Podemos subestimar o quão ruim foi o dano causado quando estamos no baile. Eu decidi continuar dançando e treinando, o que foi o MEU ERRO. (Editado do post original)

2) Vá ver um fisioterapeuta imediatamente e não tente racionalizar a dor como  sendo algo “normal”.

3) RAPAZES: se vocês estão tentando fazer um novo movimento que não tenham aprendido completamente em aula, façam lentamente, especialmente se for movimentação de cabeça! Melhor ainda, não façam nada que você não saiba realmente como fazer e usando das técnicas adequadas.

E o mais importante: Toda vez que danço com alguém que tenha estudado zouk e que sabe o que está fazendo, nunca me machuquei. Isso só acontece quando danço com quem esta perdido e finje saber o que eles estão fazendo!!!! POR FAVOR, por razões de segurança, para o bem de bailarinos em tempo integral cuja subsistência depende de um corpo saudável, estude DANÇA !!!

My Facebook post about my neck injury—after Kamacho made me edit it.
My Facebook post about my neck injury—after Kamacho made me edit it.

 

Seu irmão e a namorada de seu irmão lhe garantiram que ninguém iria pensar mal dele baseado no post que eu havia escrito.

Embora eu tenha sentido o “estalo” no meu pescoço enquanto dançava com outro cara, eu não sei se ele teria existido se eu não estivesse tão fraca e estressada. Já havia dançado com homens que conduziam movimentos violentos antes e sempre fui capaz de preparar meu corpo para esses movimentações. Acredito que Kamacho é o responsável por colocar o meu corpo e mente em um estado de estresse e cansaço desnecessário. Um estado em que eu não deveria ter alcançado dançando.

Existe uma “ligação comprovada entre estresse e lesões. Quando você permite que … o medo sobrecarregar a sua mente, você perde a capacidade de condu, e você se coloca em risco de sofrer lesões. “

(De “Dance Anatomy” por Jacqui Greene Haas.)

Com Kamacho vivia com medo do fracasso, porque o fracasso significava que eu teria que sentir a sua ira.

Na noite da lesão, pouco antes de me machucar, ele provocou esse medo. Ele e outro dançarino, Rafael, fizeram uma brincadeira de, dançando, ficar me trocando entre eles. Quando eu não compreendia algumas das coisas que eles estavam conduzindo Kamacho começou a me tratar grosseiramente (como já era habitual), mas também dizendo coisas horríveis para mim: que eu jamais conseguiria aprender o que ele estava me ensinando, que eu era estúpida e coisas desse tipo. Quando Kamacho se sentou e eu continuei dançando apenas com Rafael eu tremia me toda e quase comecei a chorar. Eu estava tão distraída que, embora geralmente dançassemos muito bem juntos, ele precisou fazer movimentações básicas para que eu pudesse me acalmar. [Nota: Que fique claro, Rafael não causou minha lesão.]

Voltando ao o dia do post no Facebook – Ao final da situação todos foram para a cama. Ele se acalmou um pouco e acabou anunciando que estava indo para um baile de Samba dançar. Ele perguntou se podia rever alguns movimentos de samba comigo e eu aceitei. Eu tinha esquecido algumas das coisas que tinha aprendido e ele ficou frustrado. Meu coração começou a acelerar, meu estômago ganhou borboletas e, junto com o enjôo minha cabeça entrou em pane. Percebi que esse havia se tornado meu estado permanente cada vez que praticava com ele.

Ele me disse que não conseguia se concentrar e trabalhar com alguém que falava mal dele (referindo-se a uma discussão que havíamos tido uma semana antes, pois ele me ouvira falando com a minha amiga Ana sobre como ele me tratava). Ele vagava pela casa sem rumo. Sua frustração e impotência não o deixavam sentar-se, então entrou no meu quarto.

“Eu não posso acreditar que deixei alguém que fala mal de mim ficar na minha casa. Eu não posso acreditar que eu perdi meu tempo com alguém que me não me oferece nada na dança!”

Naquele momento eu estava desgostoso dele. Eu tinha havia recebido o suficiente e estava exausta.

“Por favor, me diga agora que você quer que eu saia e que você quer parar de trabalhar comigo, assim eu vou atrás de algum lugar para ficar”, eu disse.

Foi quando ele calou a boca e ficou em silêncio por um tempo.

Em voz baixa começou a falar sobre suas frustrações. Disse que não tinha conseguido o que ele esperava na dança.

“Ouça Kamacho”, eu disse gentilmente. “Minha prioridade agora é a minha saúde, meu pescoço. Se isso não é bom para você e você quer terminar nossa parceria por causa disso, eu não vou ficar chateada. Acho que você precisa fazer o que é melhor para você agora. Talvez você precise encontrar uma parceira que seja mais jovem e tenha melhor extensão do pescoço (antes da lesão, ele havia dito que esse era um dos meus defeitos ). Talvez você pensasse que eu era o seu diamante, mas é evidente que não sou. Ou talvez, para atingir o nível de perfeição na dança que você está procurando, você deve fazer uma dança solo. ”

Eu queria dar-lhe um fora. Parte de mim queria que ele terminasse a parceria para me libertar. Eu sabia que se eu terminasse, despertaria somente raiva e ódio nele.

Ele ficou em silêncio. Após as horas e horas de gritos, o silêncio se tornara ainda mais assustador. O que estava acontecendo na cabeça dele? Ele estava sentado no banheiro, do outro lado do meu quarto com as luzes apagadas. Com a luz que entrava do meu quarto pude perceber que suas mãos estavam cobrindo o rosto e também ouvi alguns sons abafados. Ele estava chorando? Eu comecei a sentir pena. Mesmo o hulk tem sentimentos quando se acalma e volta a sua forma humana

“Eu sei que você está estressado.” eu disse. “Mas jogar o estresse em mim está deixando a nossa parceria e dança pior, não melhor. Eu posso ajudá-lo a lidar com o estresse, mas não se você descontá-lo em mim. ”

Mais silêncio.

“Eu dediquei minha vida ao Zouk” disse ele. “Se isso não funcionar talvez eu só vou sair e ir para o trabalho com o meu pai.”

De alguma forma aquele lutador que existia nele havia sumido. Ele estava (ou agia como) derrotado.

“Eu ficaria triste se você largasse o Zouk.” eu disse, honestamente. “Você tem tanto talento e tão boas ideias. Talvez você só não escolheu as pessoas certas para parceria. Talvez sua falta de paciência e seus problemas de raiva demonstrem que você precisa de alguém que está pronto para execução com pouco ou nenhum treino: uma dançarina profissional, alguém que você não precise treinar do zero.”. Lembrei dele dizendo que trabalhou bem com Natasha Terekhina, uma ótima dançarina de Zouk que já dança profissionalmente há muitos anos.

Em retrospectiva percebo que eu estava tomando parte da culpa pelo que estava acontecendo. Talvez essa tenha sido sua estratégia, talvez não estivesse ferido, mas apenas mudando de tática. Mas naquele momento esses pensamentos nem passavam pela minha cabeça. Ele havia me desarmado e eu estava no modo “mãe”.

Ele me contou a história do cavalo que esmagou seu pé pela terceira vez. Talvez ele estivesse tentando ressuscitar o lutador em si mesmo ou talvez em mim.

Levantou-se e foi para a cama sem dizer mais nada. Eu fiquei acordada até 5hrs da manhã, ansiosa. Estava evidente que a parceria havia acabado. Eu precisava ser firme sobre o fato de que eu não estava indo para a Europa. Eu precisava sair. Eu repassava as opções na minha cabeça.

Ele me acordou às 9:00.

“O dia pede praia. Vamos lá”, disse ele.

“Eu estou tão cansada, eu fiquei acordada até tarde a noite passada pensando sobre o que falamos. Vou ficar em casa e descansar.”

“Eu tento fazer coisas boas para você e está é a forma como você reage!.” Ele estava novamente agitado. Evidentemente eu não estava agindo de acordo com o seus planos. Eu desisti de tentar voltar a dormir. Aquilo foi tão infantil da parte dele que me de uma raiva que me deu a coragem de enfrentá-lo.

“Sua raiva está tornando impossível para mim trabalhar com você!”. Eu disse. “Você não respeita nem a mim nem ao meu corpo. Recuso-me a trabalhar com alguém assim. Você percebe que está gritando comigo quase sem parar desde ontem?”

“Tudo bem, se você não quer ir para a praia, coloque seus sapatos e vamos com meus irmãos. Eles vão andar de kart.”

Mais uma vez, a sua lógica não ficou clara.

“Não, eu e você precisamos nos separar por hoje! Precisamos relaxar.”

“Mas nós somos parceiros! Você precisa parar de fugir de nossos problemas!” , ele respondeu.

“Eu não vou ao kart.” Peguei minha mochila e saí.

Eu fui até academia para esticar meu corpo e relaxar minha mente. Eu percebi que ele ainda acreditava que eu iria para a Europa com ele. Ele não aceitaria o fato, não importa o que eu dissesse. Eu precisava sair o mais rápido possível. Comecei a sentir uma onda de pânico. Como ele reagiria ao entender que escolhi para sair de lá? Melhor seria fazê-lo hoje, o único dia em que sua família estava em casa durante o dia. Eram pessoas razoáveis​​, eles não deixariam as coisas ficarem mais sérias… mas eu sabia que a coisa mais segura seria sair antes que Kamacho voltasse. Melhor não ficar cara a cara quando desse a notícia. Deixei a academia e voltei para fazer as malas.

Eu tinha uma mala, dois grandes sacos de lona, uma grande mochila de caminhada e uma pequena mochila. Eles continham todas as coisas que eu tinha embalado para os meses de verão, mais minhas roupas de inverno que eu tinha pedido a um amigo para trazer para o congresso de Miami, o que já era a preparação para a turnê pela Europa com Kamacho. Juntei todas as minhas coisas e saí porta a frente, me sentindo como um cigano. Quando eu estava prestes a abrir a porta o pai de Kamacho que estava tirando um cochilo entrou na sala de estar.

“Você está indo embora?” ele  perguntou sonolento.

“Eu simplesmente não posso mais ficar aqui. Kamacho está me assustando. Não posso trabalhar com alguém que está me tratando do jeito que ele trata. Mas eu quero te agradecer por me deixar ficar em sua casa e por ser tão gentil comigo. ”

“Eu tive uma conversa com Kamacho esta manhã e disse a ele que você o deixaria se ele continuasse a tratá-la desta forma.”Disse o pai dele e continuou. “Onde você vai? Deixe-me levá-la.”

Aceitei sua oferta e ele me levou para o local onde fiquei hospedada quando cheguei ao Brasil: a casa da família de Ana. Eles concordaram com minha presença por um tempo, embora ela já não estivesse na cidade.

Quando todas as cinco peças de bagagem, juntamente com os vários sacos plásticos estavam no chão da sala e a porta foi fechada atrás de mim enchi os pulmões  de ar  e junto aquela respiração profunda eu pensei, estou segura.

7 thoughts on “Kamacho, o ser ilimitado que se sentiu limitado – Quarta Parte”

  1. Quem nao sabe perder nao sabe ganhar. Ele poderia seguir o exemplo de mestres que conheço, participar do congresso com uma parceira alternativa até que você se recuperasse, depois no próximo ter a garantia de ter a parceira intacta. Mas parece ter preferido perde-la. No aguardo do que ele tenha a dizer.

  2. a foto se comparando a Jesus foi simplesmente ridícula, atitude baixa de uma pessoa que comprovadamente tem algum distúrbio mental, bipolaridade, sei la. não se pronuncia pq sabe que nao tem argumentos suficientes pra isso.

  3. Kamacho se comparando a Deus? hahahaha onde? Mas não duvido, aqui em SP tem uns indivíduos que nunca viajaram a não ser pra Santos e quando vão para o exterior, graças a dança, se sentem os superiores, mas se esquecem que vão a trabalho e sacrificadamente, chegam e perdem a humildade!

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