O fim… e um começo

(Você já leu a premeira parte dessa história? Você pode encontrá-lo aqui: “Como é meu parceiro de dança transformou meu sonho em um pesadelo.”)

Nestes últimos meses tenho vindo a começar de novo. Eu não escrevi para este blog, eu não li os novos comentários. Precisei limpar um espaço mental para minha nova vida.

No mês passado, um dos meus trabalhos na Escola de Dança Contemporânea da Universidade de Concordia era criar uma dança solo que expressa quem eu sou — o meu eu interior. Eu ficava pensado em Zouk e da alegria e da tristeza que desperta dentro de mim. Queria criar uma peça sobre minha experiência no Brasil porque ele pegou um lugar tão grande dentro de mim. Porque Zouk me fez alcançar as estrelas, mas também me fez andar através do fogo. Eu comecei a coreografar os movimentos que iriam contar minha história, mas algo não parecia certo. Os movimentos pareciam estranhos ao meu corpo. Eles não eram “eu”. Fui ter com meu professor para falar sobre a coreografia e comecei a chorar.

Eu chorei porque percebi que minha paixão tinha sido usurpada pela tristeza. Esse trauma tinha-me envolvido em uma manta de lamento e meu espírito havia tomado um voto de silêncio. Eu não estava criando, apenas repetindo. Foi uma reencenação de minha perda. E a cada novo movimento que colocava eu estava criando um monumento da minha perda, algo sólido e pesado, algo permanente. Mas eu não queria continuar com esse peso.

Eu queria parar esse processo e eu não sabia como. “Pare”, disse meu professor. “Deixe-o ir. Encontre o que lhe trouxe alegria na dança antes do trauma. Mostre-nos essa alegria.”

Naquele dia eu limpei esses movimentos de minha cabeça. Eu deixei-os ir. Eu pensei sobre Tango — minha primeira dança de parceiro — e como eu o persegui como uma amante: com paixão, dedicação, devoção. Fui para casa e coloquei uma música Tango que canta o amor, perda, sofrimento e dor, pontuado pela força do bandoneón (acordeão). Usei-o para iluminar meu caminho de volta para o presente e queimar minha manta de lamento. Quem sou eu quando esquecer o que aconteceu? Quando eu voltar a ser mim mesma? Forte, sensual, explosiva, apaixonada, delicada. Esta sou eu.

Improvisando no estúdio.
Improvisando no estúdio.

Na escola de dança contemporânea eu danço e crio todos os dias, e a cada dia que passa estou aprendendo mais e mais sobre eu mesma, meu corpo e do mundo infinito das possibilidades de movimentos. O que eu faço é para o prazer do movimento, para a beleza do movimento, para o movimento como uma forma de arte.

Sinto-me em paz. Eu sinto minha paixão e energia brotando novamente em meu corpo. E, a partir dessa nova perspectiva eu posso voltar ao que eu deixei inacabado: o fim da minha história.

Segurando um Espelho

 

Com minha história eu desenhei um retrato do mundo interior de Kamacho, um lado que poucas pessoas viram e experimentaram. Mas as reações a minha história também ergueram um espelho para a comunidade:

Foram descobertos outros casos de abuso

– Quatro outras mulheres — Brigitte Wittmer, Brenda Carvalho, Grace Wanke e Barbara Meneses — se chegaram à frente para revelar que elas também sofreram dos mesmos abusos quando eram parceiras de Kamacho.

– Tenho recebido mensagens de outras mulheres que têm apontado outros casos de abuso de outros instrutores na comunidade Zouk. Algumas foram aproveitada sexualmente, outras foram agredidas verbalmente ao trabalhar com os seus parceiros. Elas estão todas com medo de vir a público, porque têm vergonha, pois as mulheres na comunidade são vistas como seres inferiores, porque em uma cultura onde os homens dominam, aproveitar-se das mulheres é algo normal, sendo elas as culpadas por “provocarem” tais comportamentos.

Uma recente pesquisa do governo do Brasil mostrou que 65% dos entrevistados acreditavam que as mulheres que usam roupas que mostrem seus corpos merecem ser estrupadas e 26% acham que “Uma mulher que é agredida e continua com seu parceiro, gosta de apanhar.”

Revelou jogos políticos:

– Alguns membros muito bem conhecidos e respeitados da comunidade optaram por não comentar sobre o que aconteceu — mesmo que muitos de seus alunos/admiradores o tenham feito. Quais são as suas motivações para ficarem em silêncio sobre algo que tem afetado profundamente a comunidade?

Apontou um choque cultural:

– Agora que a América do Norte e a Europa estão absorvendo o Zouk e sua cultura tão abertamente, como é que vamos navegar pelas diferenças e crenças que cada cultura tem sobre as mulheres? Irão os Norte Americanos e os Europeus submeterem-se à atual cultura machista no Zouk, ou devem eles exigir e criar uma nova cultura Zouk que melhore se adapta aos seus valores? Talvez não tenhamos uma resposta porque, encantados com a intensidade e sensualidade de Zouk, não tivemos tempo para analisar as nossas crenças e comportamentos.

Culpar a Vítima

 

Ao expor a verdade, eu também me exponho ao público. Eu fiz isso sem saber se eu iria receber elogios ou punições. Como em todos os poderosos e controversos eventos, eu recebi ambos: mensagens comoventes que me elogiavam pela minha coragem e força, que afirmavam que eu estava fazendo um favor à comunidade por iluminar uma escuridão problemática, mas também escaldantes mensagens acusando-me de escrever apenas para arruinar a carreira de Kamacho, ou de ser uma mentirosa.

Eu não fiquei surpresa. Até porque eu era uma “ninguém” e ele era uma super-estrela Zouk com fãs em todo o mundo. Como em todos os casos de abuso por trás de portas fechadas, finalmente compartilhar o que aconteceu pode se transformar em uma situação “ele disse, ela disse”, onde as pessoas não tem certeza sobre em quem acreditar.

Mas então Brigitte compartilhou sua história de abuso… e depois Grace… e então Barbara… e depois Brenda. Quando essas corajosas mulheres decidiram me acompanhar e quebrar o silêncio, eu tinha certeza de que todos iriam perceber que isso não era apenas um evento isolado, que este era um problema consistente. Mas mesmo assim, algumas pessoas acusaram-nos de TODAS sermos mentirosas e alguns sugeriram que estávamos todas a “merecer isto” de alguma forma.

Se “merecer isto” significa que somos todas apaixonadas pela dança, trabalhadoras, que estávamos dispostas a confiar na pessoa que ia ser nosso parceiro de dança, na esperança de que tudo o que era inquietante sobre ele iria mudar, e com medo de falar sobre o que estávamos enfrentando, então sim, talvez nós estivéssemos a “merecer isto”.

Culpar a vítima é “um fenómeno social e psicológico onde a culpa de um crime (estupro, roubo, assalto) é atribuído à vítima. A vítima é considerada como responsável(a culpar) parcial ou total pelo acidente ou trauma. Estes são apenas formas de racionalização e mecanismos de defesa em uma tentativa de distanciar-se a si mesmo da vítima e do problema”.

Fiquei especialmente surpreendida quando a responsabilização da vítima veio de outras mulheres. Eu recebi uma mensagem de uma mulher me dizendo que tenho que limpar ou realinhar minha energia espiritual, porque é isso que está me trazendo para esse tipo de situação. Uma mensagem de outra mulher dizendo que era imaturo da minha parte “lavar a minha roupa suja” e trazer isso para a rua — que se Kamacho e eu entrássemos em um luta, que eu deveria encontrar uma maneira de resolvê-la por trás de portas fechadas ou levá-lo à polícia. Outra mulher disse que todo o Rio de Janeiro sabe que Kamacho é louco, portanto, qualquer mulher que escolhe trabalhar com ele assume automaticamente a responsabilidade total para tudo o que acontece com ela quando parceira dele. Depois de ler esses comentários eu pensei “eles não percebem!” Porém, eu não entendia toda a extensão das cadeias psicológicas do abuso até que eu experimentei ele em primeira mão. Eu esperava que ao escrever minha história pudesse lançar alguma luz, mas talvez seja impossível de entender se você nunca foi vítima de abuso.

Embora isso tenha acontecido na comunidade Zouk, a violência contra as mulheres é uma questão global. De acordo com Jackson Katz, um educador anti-sexismo, é um problema dos homens — embora raramente seja enquadrado como tal. O “grupo dominante raramente é desafiado a pensar sobre a sua dominância”, diz Katz, “porque essa é uma das características-chave de poder e privilégio, a capacidade de ir sem examinação, sem introspecção… sendo processado como invisível no discurso de que primariamente o cerca[homens]”.

Recebi uma mensagem comovente de um jovem cuja amiga estava em um relacionamento abusivo e ele expressou arrependimento de não ter intervindo. Os homens são colocados em uma posição desconfortável, porque o seu género perpetua a violência, mas ao mesmo tempo eles são os irmão, pais, filhos e amigos de mulheres que são abusadas. Confrontar outros homens e questionar suas ações pode ser um desafio em algumas culturas, onde é mal visto questionar como um outro homem trata mulher, isto é, sua propriedade.

Gratidão

 

Às vezes o passado pode nos assombrar e empurrar-nos para baixo, nos impede de continuar com nossas vidas. Então nós evitamo-lo, corremos para longe dele, nós amaldiçoamo-lo. Nós não queremos lembrar dele. Mas não é o caso com esta história. Eu abraço esse passado porque ele criou tanta transformação, porque ele me colocou no meu verdadeiro caminho.

“Pise dentro do fogo do auto-conhecimento. Este fogo não o queimará, apenas queimará o que não é você”

– Mooji

Solo

Eu quero agradecer a todos que tomaram seu tempo para ler o que eu escrevi, que reviveram minha história comigo, que me enviaram mensagens de amor e apoio. Vocês tem sido uma parte maravilhosa da minha jornada para a cura!

Quero agradecer aos homens que arrematam seu machismo e me enviaram tão sentidas, sinceras, e maravilhosas mensagens de esperança e carinho.

Quero agradecer às mulheres que me enviam mensagens com suas histórias e lutas pessoais. Admiro cada uma de vocês, quer continuem em silêncio, quer compartilhem suas histórias com o mundo… saibam que sempre que vocês falarem, você me tem a mim e tantos outros a apoiá-las.

Obrigada à Brigitte, Grace, Brenda, e Barbara — quatro mulheres incríveis que passaram por tanta coisa e foram capazes de emergir brilhantes e bem sucedidas no outro lado. Brigitte está estudando dança contemporânea na escola de Angel Vianna, no Rio de Janeiro e tem viajado, ensinando e coreografando com seu parceiro, Cayo Louran. Grace está trabalhando em uma academia, ensinando acrobacias dinâmicas e eu vejo o quão forte e talentosa ela é quando eu vejo seus vídeos no Facebook. Brenda tem vindo a realizar no Brazouka! o primeiro Zouk dança-drama que tem sido um enorme sucesso no Reino Unido e agora na Austrália.

Você todas são uma inspiração!

Depoimentos

 

Quando eu estava escrevendo meu blog eu comecei a montar uma página de depoimentos, com a coleção de escritos de Grace, Brenda, Barbara e Brigitte. Eu ainda acho que é importante ter tudo isso em um só lugar. A história não pode ser esquecida. E as suas experiências, bravura e capacidade de superar devem ser comemoradas. Se você gostaria de ler e comentar, poderá encontrar a página de depoimentos aqui.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *